Por André Pelliccione, da Redação do Sindsprev/RJ
Debate de alto nível marcou evento realizado dia 14/05 no auditório do Sindsprev/RJ
Foto: Fernando França
“Agradeço o convite e quero dizer que foi uma honra para mim estar aqui para falar de um assunto dessa importância, em meio a trabalhadores e sindicalistas. Sempre procuro me referir à Revolta da Chibata como algo ainda atual”. A saudação final do professor Álvaro Pereira do Nascimento, da UFRRJ, não deixou dúvidas quanto à satisfação proporcionada a todos os que participaram do debate sobre os 100 anos da Revolta da Chibata, realizado nessa sexta-feira 14/05, no auditório nobre do Sindsprev/RJ.
De responsabilidade da Secretaria de Gênero, Raça e Etnia do Sindsprev/RJ, a atividade foi aberta com a exibição do filme ‘Memórias da Chibata’, do diretor Marcos Manhães Marins, seguida da palestra com Álvaro Nascimento, intercalada pela leitura do poema ‘Soweto, Salvador, Rio’, feita pelo ator Júlio Venceslaw. “Na época, a revolta teve grande repercussão no Brasil e no exterior, onde jornais da Europa falaram dos marinheiros liderados por João Cândido. No Brasil, algumas manchetes diziam que a república estava em perigo. Os revoltosos circularam com os navios pela Baía de Guanabara e foram acusados de homicídio e insubordinação grave”, explicou Álvaro Pereira, que é doutor em história pela Unicamp, autor do livro ‘João Cândido e a chama da liberdade’, entre outras obras sobre a Revolta da Chibata. Ele lembrou que, após serem anistiados em 26 de novembro daquele fatídico 1910, com aprovação do senado, os marinheiros começaram a sofrer perseguições que incluíram a demissão e até a deportação para trabalhos forçados nos seringais da Amazônia, fato que gerou protestos do então senador Rui Barbosa, favorável à anistia. “Nesse ínterim — completou Álvaro — estourava a revolta de fuzileiros na Ilha das Cobras, que foi bombardeada e sufocada pela Marinha, resultando em inúmeras mortes”.
Dois pesos e duas medidas
Respondendo às perguntas da platéia após sua exposição, Álvaro Pereira frisou que, ao longo da história, a Marinha e os militares brasileiros não trataram outros casos de ‘indisciplina’ nas forças armadas com o mesmo rigor aplicado à Revolta da Chibata. “Em 1893, houve a histórica revolta da armada, liderada pelo Almirante Custódio José de Melo, contra o então presidente Floriano Peixoto. Em 1955, para impedir a posse de Juscelino Kubitschek, um civil, Carlos Lacerda [ex-governador da Guanabara], reuniu-se a militares, como o almirante Pena Boto, que tomaram o Cruzador Tamandaré numa óbvia tentativa de golpe. Os dois eventos, embora também fossem atos de indisciplina, não tiveram praticamente nenhuma conseqüência ou punição para seus autores, mostrando que as punições são aplicadas dependendo do caráter de classe dos envolvidos. Infelizmente é a lógica do Estado porque, na Revolta da Chibata, todos eram marinheiros, negros e pobres”, explicou, sob aplausos, após destacar ter sido esta a razão para a tardia anistia a João Cândido [sacramentada somente em 2008, noventa e oito anos após a Revolta].
O debate também se ampliou para refletir sobre a situação atual dos negros e pobres no Brasil, diariamente discriminados no acesso aos serviços públicos de saúde e educação, incluindo a universidade. Sobre a política de cotas, Álvaro ponderou o que considera necessário. “Cursei a universidade sem auxílio das cotas, mas sei que sem elas é muito difícil e a possibilidade de um aluno desistir é muito grande. Sou a favor das cotas porque há um grande descompasso no país. No entanto, precisamos de igualdade real para que não sejamos mais sub-representados. Se houvesse um ensino perfeito e com acesso universal, não precisaríamos de cotas”, disse.
Aprofundando o debate sobre racismo e discriminação
“As cotas e políticas como bolsa-família são, na verdade, formas de compensar a diminuição do Estado. “O sistema capitalista visa sempre enxugar direitos e esta é a meta das políticas neoliberais, que não têm qualquer compromisso social. Nossos direitos estão sendo vilipendiados”, polemizou a diretora do Sindsprev/RJ Jaqueline Alves.
Coordenador do Sindsprev Comunitário dos KMs 32 e 34, Nova Iguaçu, Antonio Oliveira de Andrade apontou a necessidade de aprofundar a discussão para além da questão racial. “A referência deve ser sempre a busca do conhecimento, da conscientização dos trabalhadores quanto aos seus direitos e necessidade de combater as opressões, pois é assim que conseguiremos avançar”.
Diretor da Secretaria de Gênero, Raça e Etnia do Sindsprev/RJ, Osvaldo Sergio Mendes destacou, a partir do exemplo da Revolta da Chibata e de outros acontecimentos históricos, a urgência de o povo negro e pobre se constituir como força política. “Hoje o que vemos é uma política de extermínio da população negra, sobretudo os jovens, pelas policias dos estados brasileiros. A maioria da juventude não chega aos 20 anos, como mostram as estatísticas. Não basta denunciarmos, temos que nos organizar para enfrentar o racismo, o extermínio e a discriminação. É por isso que lutamos por um outro tipo de Estado e por reparações históricas".
Militante denuncia ameaças de morte que vem sofrendo na internet
Presente ao evento no Sindsprev/RJ, o interlocutor da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR), babalawo Ivanir dos Santos, denunciou as ameaças de morte que vem sofrendo pela internet. O caso já foi registrado junto às autoridades policiais, com pedido de providências urgentes. “Peço a todos vocês uma grande mobilização contra mais uma manifestação de intolerância religiosa que precisamos combater. Isto tem a ver com fato de eu ter contribuído muito para a grande visibilidade positiva alcançada pelos cultos afro-brasileiros, o que gerou irritação em setores conservadores e intolerantes”, afirmou Ivanir, que também é do do Centro de Articulação das Populações Marginalizadas. O Sindsprev/RJ se solidariza integralmente com Ivanir, cobrando das autoridades que identifiquem e punam exemplarmente o(s) autor(es) das intoleráveis ameaças.
Saiba como foi a Revolta da Chibata
A revolta da Chibata foi um movimento de marinheiros, planejado por cerca de dois anos e que culminou com um motim que se desenrolou de 22 a 27 de novembro de 1910 na baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, à época a capital do país, sob a liderança do marinheiro João Cândido Felisberto. Na ocasião, mais de dois mil marinheiros rebelaram-se contra a bárbara aplicação de castigos físicos a eles impostos como punição e o extremo autoritarismo da Marinha do Brasil. Durante a revolta, seis oficiais foram mortos, entre eles o comandante do Encouraçado Minas Gerais, João Batista das Neves. A maioria dos marinheiros era negra e recebia maus-tratos semelhantes aos da escravidão, incluindo o chicoteamento. Em 26 de novembro, o governo do presidente marechal Hermes da Fonseca aceitou as reivindicações dos amotinados, abolindo os castigos físicos e anistiando os revoltosos que se entregassem. Estes, então, depuseram armas e entregaram as embarcações. Entretanto, dois dias mais tarde, a 28/11, vários marinheiros foram expulsos da Marinha, sob a acusação de "inconveniente à disciplina".
Em dezembro, quatro marujos foram presos, sob a acusação de conspiração. Em meio a uma forte onda de boatos, isolados e desorganizados, os fuzileiros navais sublevaram-se na ilha das Cobras (dia 9 do mesmo mês), sendo bombardeados durante todo o dia mesmo após hastearem a bandeira branca. De seiscentos revoltosos, sobreviveram pouco mais de uma centena, detidos nos calabouços da antiga Fortaleza de São José da Ilha das Cobras. Entre esses detidos, dezoito foram recolhidos à cela n° 5, escavada na rocha viva. Ali foi atirada cal virgem, na véspera do Natal. Após vinte e quatro horas, apenas João Cândido e o soldado naval Pau de Lira sobreviveram. Cento e cinco marinheiros foram desterrados para trabalhos forçados nos seringais da Amazônia, tendo sete destes sido fuzilados nesse trânsito. João Cândido também foi expulso da Marinha.
Em 24 de julho de 2008, através da publicação da Lei Federal nº 11.756/2008 no Diário Oficial da União, foi concedida anistia post mortem a João Cândido Felisberto, e aos demais participantes do movimento.
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