Foto: Fernando França
Por André Pelliccione, enviado a Petrópolis
Na foto, a negociação realizada ontem, em Petrópolis, entre Prefeitura e o movimento unificado
Os servidores da saúde e da educação de Petrópolis repudiaram, em ato público na noite de ontem (16/06), a negativa da Prefeitura em atender à pauta unificada das duas categorias e insistir na sua (já rejeitada) proposta da semana passada: 5% de reajuste sobre os míseros R$ 465,00 de vencimento, mais abono de 100,00. As duas categorias farão assembleia unificada hoje, quinta-feira, 17/06, a partir das 18h, no Clube Petropolitano, com a possível retomada da greve por tempo indeterminado caso o Prefeito Paulo Mustrangi (PT) não recue de sua posição.
Realizada em frente à Prefeitura, a manifestação de ontem foi o cume de protestos iniciados na rodoviária velha de Petrópolis (Praça da Independência), de onde os servidores vieram em passeata, carregando faixas e distribuindo carta à população com denúncia do arrocho salarial e das péssimas condições de trabalho que vêm enfrentando há mais de dois anos. Velas, apitaço e muitas vaias ao prefeito Mustrangi e seu governo também marcaram todo o trajeto da passeata, que ainda cobrou dos vereadores um posicionamento coerente sobre a pauta unificada. “Que vergonha. Esse é o governo do PT em Petrópolis, um governo que massacra os trabalhadores e ataca seus direitos, esse é o governo Mustrangi, que há quase dois anos nos deixa com reajuste zero, recebendo abaixo do salário-mínimo. Alguém aí está satisfeito com o atual governo?”, perguntou a servidora da saúde municipal Esther Mendonça, recebendo um sonoro não como resposta unânime da passeata.
Servidores da educação também denunciaram a falta de pessoal e as precárias condições de trabalho nas escolas do município como dois dos principais problemas da categoria, além do arrocho salarial.
Prefeitura age de má-fé na negociação
A insistência da Prefeitura em sua já surrada proposta de 5% aconteceu durante audiência dos secretários municipais de governo, administração, meio-ambiente e cultura com o movimento unificado dos servidores, realizada ao mesmo tempo em que se iniciava a passeata da saúde e da educação na rodoviária velha. Representado na negociação por Sindsprev/RJ e Sepe-RJ, o movimento unificado mais uma vez repudiou a tentativa dos secretários de ‘ressuscitar’ os 5%, cobrando, em seu lugar, o atendimento da pauta aprovada pelas categorias na semana passada: que nenhum trabalhador do município receba salário inferior ao mínimo nacional de R$ 510,00; que sobre os vencimentos já equiparados ao mínimo seja aplicado 15% de reajuste; que haja incorporação de dois abonos de 100,00 para todos os servidores; formação de comissão paritária para elaboração do Plano de Cargos, Carreiras e Salários para todos os servidores; e PCCS unificado para a Educação. Foi o bastante para a suspensão das conversações por cerca de uma hora.
Quando as partes preparavam-se para novamente sentarem à mesa, a passeata unificada dos servidores chegou à sede da Prefeitura, com os trabalhadores cantando os hinos nacional e de Petrópolis. Foi então que os secretários, em mais um desrespeito aos trabalhadores, recusaram-se a continuar, alegando que ‘não negociariam sob pressão’. “O que vimos foi uma enrolação do governo municipal, que, desde o início, não tinha qualquer proposta alternativa e não queria mesmo negociar nada além daqueles 5% já rejeitados pelos servidores. Queríamos chegar a um patamar para beneficiar o servidor, com base na contraproposta da semana passada, mas não foi possível. Enquanto isso, a população de Petrópolis já não agüenta mais, a população está doente, a cidade está doente, e a culpa é da Prefeitura”, afirmou o diretor do Sindsprev/RJ Octaciano Ramos (Piano), que representou o Sindicato no movimento unificado dos servidores.
Vaias a Mustrangi e seu governo
Recém-chegados em passeata, centenas de servidores que se aglomeravam em frente à Prefeitura deram uma estrondosa vaia a Paulo Mustrangi e seu secretariado ao serem informados, pelos próprios membros do movimento unificado, da suspensão das negociações. “Prefeito Mustrangi, o senhor tem até as 18h desta quinta-feira para refletir e atender às reivindicações que apresentamos na semana passada. Pense bem. O senhor será responsabilizado pelos problemas nos serviços públicos da cidade”, disse, no carro de som, uma servidora que não se identificou.
Aos gritos de ‘greve’, ‘greve’, a categoria reafirmou a presença de todos na assembleia de hoje, no Petropolitano, sinalizando que retomará a paralisação por tempo indeterminado caso Mustrangi insista nas propostas rebaixadas.
Os servidores continuam em estado de greve. Além do reajuste salarial e condições dignas de trabalho, as categorias querem planos de carreira implantados a partir de uma discussão com todos os trabalhadores, e não imposta ‘de cima para baixo’. Ao encerrarem a manifestação em frente à Prefeitura, os trabalhadores cantaram as palavras de ordem ‘‘a greve continua, prefeito a culpa é sua’, mostrando sua indignação com o não atendimento de sua pauta.
Entrega da gestão do Alcides Carneiro é denunciada
Durante a passeata de ontem, Esther Mendonça denunciou o convênio firmado pela prefeitura de Petrópolis, na gestão anterior, que entregou a gestão do Hospital Alcides Carneiro (unidade pública municipalizada) à Faculdade de Medicina de Petrópolis e Faculdade Arthur Sá Earp Neto (FMP/FASE), que, segundo ela, constituem uma Organização Social (OS) de caráter privado. “Ninguém conhece esse contrato de gestão e a população não tem controle sobre os atendimentos feitos ali. A entrega do Alcides Carneiro é parte da privatização da saúde, um convênio que consome R$ 1,2 milhão de reais ao mês. O prefeito Mustrangi diz que não tem dinheiro para o nosso reajuste, mas como paga àquela instituição privada para administrar um hospital público ?”, questiona ela, que também critica as relações trabalhistas adotadas no convênio. “Hoje somente 20% dos servidores do Alcides Carneiro são estatutários, que ganham R$ 418,00 de salário-base, enquanto os contratados recebem mais de mil reais. Queremos saber por que essa diferença de tratamento”.
Servidores criticaram a não criação, na Câmara Municipal, de uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) para investigar o convênio que entregou o Alcides Carneiro à FMP-FASE.