Home
|
|
|
|
|

| Saúde Federal | Saúde Estadual | Saúde Municipal | INSS | MPS | Funasa | DRT | PSF ACS ACE | Ações Judiciais | Comunitário | Política | Economia | Cultura | Geral | Galeria de Fotos | Links | Erramos 30/05/2019 15/05/2019 14/05/2019 03/05/2019 10/04/2019
Comunitário  

Protesto de 1 ano da tragédia das chuvas tem emoção e revolta contra o poder público

07/04/2011

Manifestação realizada em Niterói denuncia omissão dos governantes
Foto: Fernando França

Por Hélcio Duarte Filho
Da Redação do Sindsprev-RJ

Um ano depois, os desabrigados e sobreviventes das chuvas de abril do ano passado caminharam e cantaram pelas ruas de Niterói para dizer que de lá para cá quase nada fez o poder público: nenhuma casa foi construída com o objetivo de abrigar quem ficou sem teto, muita gente retornou para suas antigas residências, mesmo sob o medo de que uma nova tragédia aconteça, e apenas poucas obras, apontadas como de fachadas, estão em curso nos locais atingidos. Eles percorreram o Centro de Niterói com paradas em frente a prédios que representam os três poderes da República, apontados como omissos ou homicidas: o Palácio da Justiça, a Câmara de Vereadores e a Prefeitura.

A marcha que marcou os 365 dias dos desabamentos que mataram 170 pessoas e deixaram cerca de dez mil desabrigados transcorreu sem confrontos com a polícia, mas sob intensa tensão, provocada em parte pela repressão ocorrida contra a manifestação anterior, em parte pelo forte aparato policial deslocado para ‘acompanhá-la’ - homens e mulheres do 12º Batalhão da PM e da Tropa de Choque -. “Pra que isso, os bandidos devem estar aproveitando com tanta polícia deslocada para aqui”, comentou uma manifestante ao se deparar com um cordão de policiais militares.

Logo no início da passeata, ainda atrás da antiga sede da Prefeitura, local da concentração para a atividade, um homem foi detido com truculência pela polícia nas proximidades do ato, que alegou ‘desacato à autoridade’. Ele foi levado dali na parte de traz de um camburão do 12º Batalhão. Não havia ainda informações se ele participava do protesto ou não.

Moradores de favelas e desabrigados saíram de diversos pontos da cidade para participar do ato, que reuniu centenas de pessoas. Do Morro do Estado, na região central da cidade, cerca de 30 moradores se reuniram no Largo da Amizade, local do desabamento que deixou três mortos na comunidade, e desceram juntos a principal avenida que corta a favela até a concentração geral para o ato. “Não queremos esmola, queremos uma grande política de habitação popular e dinheiro do aluguel social, que está sendo desviado”, explicava do caro de som, no caminho, o servidor Sebastião Souza, o Tão, líder comunitário do local e dirigente do Sindsprev-RJ.


Realizado pelo Comitê dos Desabrigados de Niterói e por associações, entidades dos movimentos sociais e sindicatos, entre eles o Sindsprev Comunitário, o protestou agregou ainda as lutas em defesa da educação e saúde públicas, gratuitas e de qualidade e contra as privatizações no município. Alguns trabalhadores da Clin, a empresa de limpeza urbana que o refeito Jorge Roberto Silveira quer privatizar, estiveram no ato. Por diversas vezes, os manifestantes gritaram “Fora Jorge” e fizeram críticas ao prefeito pedetista, acusado de abandonar a cidade para viver em sua casa em Miame, nos Estados Unidos.

O trecho percorrido da rua da Conceição, a principal via de saída do Centro da cidade, foi o de maior tensão com a polícia, que tentou, mas não conseguiu, confinar os manifestantes a apenas uma faixa da pista.  O que acabou invertido: o trânsito é que ficou restrito a uma das quatro faixas da rua.

O Palácio da Justiça foi a primeira parada da passeata – local onde o ato ganhou a adesão de algumas dezenas de estudantes da Universidade Federal Fluminense. Depois, caminharam cerca de 50 metros para parar por alguns minutos na Câmara dos Vereadores, quando a avenida Amaral Peixoto, a principal do Centro, embora com fluxo de carros menor naquele final de tarde, chegou a ficar totalmente interditada. 

O ato foi concluído em frente à Prefeitura, com um ato ecumênico e político. Velas foram acesas e cestas com pães, distribuídas, ao som de “Cio da Terra”, clássico de Milton Nascimento e Chico Buarque (“Debulhar o trigo/Recolher cada bago do trigo/Forjar no trigo o milagre do pão/E se fartar de pão...”). Os nomes de 30 comunidades de Niterói em que houve vítimas foram citados um a um, agora sob o som de “Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores”, a obra de Geraldo Vandré que se tornou um hino da luta contra a ditadura (“Caminhando e cantando e seguindo a canção/Somos todos iguais...”).

Àquela altura, a polícia, cujo aparato minguara, não incomodava mais. Já era noite quando parte do ato se dispersou, mas muitos ainda encontraram ânimo para ir à Câmara de Vereadores participar da audiência pública convocada para tratar da situação dos desabrigados.

Ao iniciá-la, o vereador Renatinho (PSOL), autor do pedido para realizá-la, chamou à mesa oito secretários municipais, um secretário do governo do estado e o prefeito, todos previamente convidados ao evento. Nenhum deles ali se encontrava, o que provocou vaias, risos, mas nenhuma surpresa. “Eles não gostam de ir aonde tem povo, eles só gostam de nós na hora da eleição”, disse em voz alta uma mulher da platéia. Duas pessoas se retiraram indignadas com a ausência dos administradores do município, chamados para explicar por que nenhuma casa foi construída e o que está sendo feito com o dinheiro do aluguel social – que está atrasado e só é pago e com irregularidade a parcela dos desabrigados. Discursos duros se sucederam, volta e meia intercalados com coros de “Fora, Jorge”. O governador Sérgio Cabral e a presidenta Dilma Rousseff também foram responsabilizados por essa tragédia brasileira. Dois policiais militares faziam ‘plantão’ na Câmara e ‘garantiam’ a segurança da audiência. Não por acaso, únicos representantes do Poder Executivo durante todo aquele longo dia.

* Este texto integra uma série de reportagens sobre as manifestações e atividades que marcam 1 ano da tragédia em Niterói.



Niterói - um ano de descaso

Manifestação em Niterói denuncia omissão dos governantes que, em um ano, não construíram uma única casa para os desabrigados das chuvas de abril de 2010, quando mais de 170 pessoas morreram e dez mil ficaram desabrigados. Sindsprev participou e ajudou a organizar o protesto.
Anterior 12 foto(s) Próxima
- Foto: Fernando de França



     Voltar

Ir para o topo | Envie esta página para um amigo | © SINDSPREV 2007  |  Desenvolvido por Spacetec