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Economia  

Seminário em Curitiba conclui que neoliberalismo está 'em estado terminal' no mundo todo

19/12/2008

Por Mário Augusto Jakobskind, da redação do Sindsprev/RJ

A crise financeira com epicentro nos Estados Unidos, e que já se reflete na economia real tanto dos países industrializados quanto dos emergentes, foi tema de um seminário em Curitiba, capital do Estado do Paraná, que reuniu 30 palestrantes, economistas, professores e administradores do Brasil e representantes da Itália, Inglaterra, Alemanha, Suécia, Rússia, Argentina, Venezuela, México, Equador e um uruguaio representante da Organização das Nações Unidas, em oito mesas de debates.
A maioria dos participantes lembrou que a atual crise era previsível em função da vasta especulação financeira que se abateu sobre a economia mundial e remete ao fim da etapa neoliberal dos últimos 25 anos.
Os economistas que participaram do seminário sugeriram algumas medidas para enfrentar a crise e que devem ser colocadas em prática imediatamente, entre as quais: a centralização e estatização do câmbio, aceleramento dos investimentos públicos, a revitalização dos Estados nacionais, o fim do Consenso de Washington e a integração latino-americana, não apenas econômica, como cultural e política.
Foram cinco dias de intensos debates com enfoques analíticos diversos, mas com alguns consensos, como, por exemplo, o de que a crise é grave, será prolongada  e alterará profundamente a economia mundial, bem como está ocorrendo o colapso do paradigma neoliberal de duas décadas e meia.

Crise pode chegar a uma depressão

Além de apresentar um quadro geral da economia em diversas regiões, o seminário Crise Rumos e Verdades, organizado pelo Governo do Estado do Paraná, apontou caminhos para se enfrentar a crise recessiva e que, para alguns economistas, como o professor Nildo Ouriques, diretor do Instituto Latino-Americano da Universidade Federal de Santa Catarina, pode evoluir, em pouco tempo, para uma depressão. Ouriques argumentou que a recessão é uma queda aguda do Produto Interno Bruto (PIB) por dois ou mais trimestres consecutivos, como já está acontecendo. A depressão, por sua vez, está relacionada com outros aspectos mais amplos, como níveis de emprego, produção industrial, rendimento real e crédito disponível.

Blindagem de papel crepom

Um dos mais críticos da atual política econômica do governo Lula, o professor Reinaldo Gonçalves, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), acredita que o governo brasileiro não está enfrentando a crise apenas com timidez, mas está se posicionando com covardia. Gonçalves comparou a segurança do Brasil em cenários de crise a uma “blindagem de papel crepom”. “Temos uma economia altamente dependente do resto do mundo. As exportações correspondem a 45,3% do PIB brasileiro. Nossas reservas são pequenas. O problema é que as exportações afetam o número de renda na economia. Neste trimestre é que as exportações deram contribuição zero para o crescimento do PIB. Se as exportações caírem para 20% o PIB cai”, explicou, lembrando que o país não tem rede de proteção como grandes economias iguais à alemã, que podem garantir seguros aos trabalhadores.

Senador defende fim de paraísos fiscais

O senador Aloísio Mercadante, do PT de São Paulo, que é professor de economia, defendeu o fim dos paraísos fiscais em todo o mundo. Segundo o parlamentar, são 78 paraísos fiscais espalhados pelo mundo que escondem as sombras do sistema financeiro, impedem o planejamento fiscal e os bancos centrais de atuarem de forma coordenada para o enfrentamento dessa crise. “Essa é a melhor contribuição que podemos dar para o enfrentamento da crise no mundo”, afirmou.

Economistas criticam política do BC

Para quase todos os economistas brasileiros que participaram do Seminário ‘Crise Rumos e Verdade’, o governo Lula está navegando contra a corrente ao manter os juros inalterados em 13,75% por determinação do Banco Central, dirigido por Henrique Meirelles, ex-diretor do Banco de Boston, considerado por muitos críticos do atual governo como o verdadeiro condutor da política econômica brasileira.
Carlos Lessa, ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), demitido do cargo por Lula depois de entrar em choque com o capital financeiro e, sobretudo, com Meirelles, assinalou que a saída do presidente do Banco Central depende apenas de vontade política que se concretizaria com a assinatura do Presidente da República e publicação do ato de demissão no Diário Oficial da União.

Centralização do câmbio

O professor Carlos Lessa defendeu a centralização do câmbio como suporte para a construção de um projeto nacional para o Brasil superar a crise. Ele acredita que a superação da crise econômico-financeira mundial depende de vontade política para fazer do Brasil uma grande nação em um período de dez anos.
Lessa sugeriu ainda outras medidas concretas para o Brasil enfrentar a crise, entre as quais a combinação de investimentos públicos e privados que permita a execução de grandes programas de infra-estrutura. Defendeu concomitantemente a centralização do câmbio, com o Banco Central fazendo o orçamento cambial para ser a peça-chave no projeto nacional brasileiro, sugerindo, para facilitar essas medidas, a união dos bancos estatais brasileiros, como o Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em apenas um só banco estatal, forte.

Brasil enfrenta perigo de estouro de bolha

Veterano professor de economia, Lessa alertou para um dos riscos graves a que está exposta a economia brasileira: a possibilidade de estouro de uma bolha gerada pelo crédito consignado farto concedido desde 2005. “Essa coisa espantosa de vender automóveis em 90 prestações sem entrada criou uma bolha que pode estourar a qualquer momento com a decisão do Banco Central de manter as taxas de juros em patamares elevados”, disse.
Lessa advertiu que em pouco tempo com o aumento do desemprego, o Brasil sentirá os efeitos do estouro da bolha, uma crise de crédito provocada por endividamento de pessoas de baixo poder aquisitivo. “Esse pessoal comprou bens pela tabela price, que é muito onerosa e com a queda de emprego e renda o resultado será realmente danoso”. Ele acha que o Brasil poderá repetir o salto ocorrido depois da crise de 1929 com o modelo de substituição de importação colocado em prática pelo governo Getúlio Vargas.
As recentes descobertas de riquezas petrolíferas no litoral brasileiro, segundo Lessa, geram um cenário de encruzilhada. Dependendo do tipo de opção política que se adotará, o país poderá ingressar numa etapa de crescimento com justiça social ou aprofundar um modelo que conduzirá o Brasil para um cenário negativo.
Vale lembrar que o governo Lula, através do Ministro de Energia, Edson Lobão, já admitiu colocar as reservas do pré-sal como garantia para os chineses, que teriam manifestado a disposição em conceder empréstimo de 10 bilhões de dólares à Petrobrás.

Uma sociedade de vontade fraca

O cientista político César Benjamin além de criticar duramente a política econômica que vem sendo adotada no Brasil nos últimos anos chamou a atenção para um ponto importante que, segundo ele, enfraquece o país. “O Brasil ao longo desses 30 anos, foi se tornando cada vez mais uma sociedade de vontade fraca. Uma sociedade que busca pequenas soluções, que busca os atalhos, os caminhos de menor resistência e não consegue estabelecer um projeto de longo prazo nem construir, de forma coerente, uma forma de sustentação desse projeto”.
Como exemplo que reforça essa tese, César Benjamin lembrou que “todo o país pede a queda da taxa de juros, até mesmo o Presidente da República, mas o Banco Central se reúne e mantém a maior taxa de juros do mundo”. Para Benjamin os brasileiros aceitam passivamente ter um Estado dentro do Estado Nacional, que não responde ao Estado Nacional. “É exatamente isso que ocorre hoje na relação do Estado Brasileiro com o Banco Central”, disse.
Benjamin demonstrou pessimismo quanto ao futuro da economia ao alertar que as medidas recentes do governo brasileiro fortalecem o poder autônomo do Banco Central e que tal postura pode conduzir o País ao pior dos cenários previstos. Ele considera que a atual política cambial brasileira atende principalmente os interesses das empresas multinacionais aqui instaladas.

Encruzilhada

O Governador do Paraná, Roberto Requião (PMDB), acredita também que o Brasil está numa encruzilhada como nação, ou se fazem fortes e maciços investimentos industriais criando condições para o desenvolvimento real ou “selamos a nossa história como meros produtores de commodities agrícolas, consolidando augusta presença no mundo subdesenvolvido, do atraso, da periferia. E se isso acontecer, acrescentou, o Brasil se reduzirá a espaço para as plantations das multinacionais”.

Crise não permite remendos

O presidente do Instituto de Pesquisa Aplicada (Ipea), órgão vinculado ao governo federal, Márcio Pochman, atribui a crise a um projeto neoliberal, originada pela falta de uma regulamentação, principalmente nos Estados Unidos. Por isso ele não acredita que o Brasil vá sofrer os efeitos tão fortes como nos países desenvolvidos. “Se o Brasil tivesse um governo que desse vazão a esse modelo de forma mais evidente, nós estaríamos muito pior do que estamos hoje”, disse.
No entender de Pochman, a experiência brasileira demonstra gastos altos do governo Lula com o social, direcionado principalmente para os mais pobres. “Gastamos somas fantásticas com pagamentos de juros para pouquíssimas famílias. O Governo Lula é um governo de programas não um governo de reformas”, disse. “Ao meu modo de ver a crise não vai permitir remendos. Vamos ter que fazer opções, medidas mais drásticas e mais ousadas”, finalizou.

Medidas tímidas

João Sicsú, diretor de estudos macroeconômicos do mesmo IPEA, considerou tímidos o conjunto de ações adotados pelo Brasil até agora. Em contradição ao que foi dito pelo professor Wilson Cano da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), Sicsú comentou que o crescimento do Brasil nos últimos dois anos não tem relação com a onda mundial, já que a maioria dos países registrou uma desaceleração nesse período.
“A economia brasileira depende muito pouco de suas exportações para explicar seu crescimento. Ela é uma economia fechada e o que explica o crescimento no país é o consumo interno e os investimentos”, assinalou.
Já para Wilson Cano a economia brasileira pensa exatamente o contrário, ou seja, é extremamente aberta e dependente do dólar, o que justifica as elevadas taxas de juros. O professor da Unicamp acredita que sair da crise significa sair do neoliberalismo e reassumir os controles sobre os mecanismos da política econômica. “O crédito deve voltar a ser dirigido”, defendeu.

Crise de paralisia nos EUA

Na opinião do professor Franklin Serrano, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como os Estados Unidos neste momento deixou de fazer uma política articulada e por não ter uma política bem definida, instalou-se uma                          grave crise de paralisia. “Bush é o bode da sala, se for retirado melhora, ou seja, com a sua próxima retirada de cena criou-se um clima de otimismo com Barack Obama. Serrano não acredita que houve um colapso americano.
Entre os economistas não brasileiros, o uruguaio Alex Izurieta, secretário sênior de Relações Econômicas da Organização das Nações Unidas (ONU) assinalou que em função da crise os governos devem aproveitar a oportunidade para implementar mudanças estruturais profundas. “É preciso ressuscitar o papel do setor público, não só de investimentos em infra-estrutura como a criação de empregos e investir no social”, acrescentando que o setor público deve pensar também em uma nova arquitetura financeira internacional.

Proposta criação de empresa nuclear no Mercosul

Para Aldo Ferrer, ex-Ministro da Economia da Argentina no governo Kirchner, considerado um dos expoentes economistas, junto com Celso Furtado, na América Latina, não há desenvolvimento não apenas sem transformação produtiva, como também sem ciência e tecnologia. Nesse sentido, Ferrer propôs a criação de uma empresa sul-americana de energia nuclear para consolidar a integração dos países sul-americanos, com reflexos diretos no desenvolvimento do setor industrial do continente. “As tecnologias que se aplicam na energia nuclear são para todo o conjunto da atividade produtiva. Precisamos de iniciativas fortes para avançar na integração da infra-estrutura, da ciência e da tecnologia”, disse. Para Ferrer, “uma grande empresa de geração nuclear no Mercosul seria um grande avanço”.

Alternativa é a integração latino-americana

O mestre em Economia e funcionário do Banco Central equatoriano, Márco Naranjo Chiriboga, pediu ajuda dos paises do Mercosul, principalmente do Brasil, para superar a crise financeira mundial. Ele acha que o Equador, um país sem moeda própria e que usa o dólar norte-americano para transações comerciais internas, sentirá os resultados da crise de maneira mais acentuada e será um dos países mais afetados na América Latina.
Para Chiriboga, a única alternativa para continente sul-americano é a integração. “Talvez o efeito mais positivo é que a crise econômica atual nos permite pensar seriamente que a única solução para a crise é a integração”. Explicou que o governo equatoriano vem propondo em todos os fóruns internacionais a criação de uma moeda regional, que permita exatamente compensar os pagamentos e não seja necessário utilizar dólares para pagar ao Brasil, Venezuela ou Argentina.
No entanto, a incrementação de uma moeda única foi objeto de restrições de vários palestrantes latino-americanos que defenderam a integração latino-americana. Para estes, uma moeda única seria um dos últimos passos na integração.
José Félix Rivas, diretor do Banco Central da Venezuela, em tom irônico assinalou que de algum forma devemos agradecer a Bush que com a sua política atual permitiu que os latino-americanos se encontrassem. Para Rivas, a crise não é só financeira, mas sim uma crise econômica global que nasce no circuito real. “O capital fictício predomina sobre o capital produtivo”, disse e defendeu a efetiva integração latino-americana que se manifesta por uma aproximação cultural, midiática, não apenas econômica. Citou como exemplo concreto de integração a criação da Telesur, uma resposta à manipulação da CNN.

Vantagens fiscais e combate à especulação

Entre os economistas europeus, o russo Andrey Kobyakov defendeu que é preciso enfrentar a crise em duas vertentes: a que atinge o mercado financeiro, através de vantagens fiscais e ações de combate à especulação; e a que acontece na economia real e reflete no aumento do desemprego e na queda da produção. Esta, segundo ele, só pode ser solucionada através de ações direcionadas de investimento em infra-estrutura e baseadas nos valores morais da justiça e igualdade.

Novo Bretton Woods

Para o economista e jornalista italiano Paolo Raimondi, idealizador e defensor de um tratado que reorganize as relações comerciais e financeiras entre os países, que ele próprio denominou de um “novo Bretton Woods”, em referência ao tratado semelhante firmado em 1944, no final da Segunda Guerra Mundial, o novo acordo deve ser construído e consolidado de forma “multipolar”, ou seja, sem o predomínio de um único Estado, no caso, dos Estados Unidos da América.
Para Raimondi, muito mais grave que as perdas dos bancos e dos apostadores financeiros é a “explosão social” (desemprego, pobreza) que a crise atual está gerando.
Mario Lettieri, ex-Ministro da Economia no governo italiano do premier Romano Prodi, acha que o mundo está enfrentando uma nova crise, diferente das demais e o capitalismo que conhecemos não será o mesmo. Segundo Lettieri é necessário que o mundo caminhe para um modelo de desenvolvimento mais justo para a população e mais equilibrado entre os continentes e países, além de novas regras para o sistema financeiro.

Canibalização do neoliberalismo

O norte-americano Thomas Palley, pós-doutorado em Economia pela Universidade de Yale e mestrado em Relações Internacionais pela Universidade de Yale entende que “o modelo neoliberal se canibalizou, se destruiu a partir de dentro e finalmente se exauriu. Se nunca foi capaz de produzir crescimento com igualdade, agora sequer é capaz de gerar crescimento, mesmo com desigualdade. Sabemos que o neoliberalismo é a causa da crise. Precisamos, portanto, de um novo paradigma”, disse.
Apontou dois problemas causados pelo descolamento de produtividade e remuneração: “O primeiro é que aumenta a desigualdade de rendimentos, porque os salários são a fonte de renda da maioria das pessoas. O segundo é que você precisa emprestar e inflacionar o mercado financeiro para criar demanda. Isso cria um processo insustentável, cria fragilidade no sistema financeiro. E essa é a contradição do paradigma neoliberal, que está finalmente se mostrando.”
O Seminário Crise Rumos e Verdade foi transmitido integralmente pela TV Educativa do Paraná, que pode ser captada da Patagônia ao Canadá e também ser vista pela Internet. Todos os cursos de economia no Brasil receberão um CD compacto das exposições apresentadas e as conclusões encaminhadas às autoridades econômicas brasileiras e governadores dos Estados.






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