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Geral  

Interesses financeiros e negociações de jogadores dominaram a Copa de 2010 na África do Sul

13/07/2010

Torcedores brasileiros durante a Copa da África do Sul
Foto: Marcelo Casal/ABr

Por Gilberto Alcântara da Cruz*

A crise da economia capitalista, de um lado, o capital financeiro internacional gerindo os grandes clubes (empresas) de futebol e a sanha cada vez maior dos empresários por lucro, de outro, transformaram um torneio esportivo num dia-a-dia de uma bolsa de valores. 
Respeitáveis cronistas esportivos na Europa afirmam que a última Copa do Mundo disputada sem a interveniência direta dos interesses do capital foi a de 1990. Antes dessa competição, a interferência política local pré-determinou algumas vezes o resultado final, como na , em 1966, e na Argentina, em 1978.

A copa de 1994, realizada nos EUA, pode ser considerada aquela em que se cometeram os maiores acintes em termos de confronto de interesses extra-futebol. Do narcotráfico, passando pelo interesse pessoal da presidência da FIFA, até o interesse do capital financeiro internacional. Vejamos os fatos incontestáveis:

Primeiro – a ultrajante participação da seleção mais forte da América Latina, naquele momento, a Colômbia. Esta seleção vinha de uma eliminatória na qual foi a primeira colocada, após golear as seleções do Brasil (em São Paulo) por 4x0 e da Argentina (em Buenos Aires) por 5x0. Tida como favorita ao título, em seu primeiro confronto, frente à seleção dos EUA, perdeu e/ou deixou-se vencer por 1x0. Poder-se-ia argumentar que tal placar reflete a tenacidade da seleção anfitriã diante do nervosismo do escrete colombiano. Por trás desse vergonhoso jogo, uma grande negociata. A bolsa de apostas apontava um cabal favoritismo colombiano na base de 100x1. Depoimentos de alguns jogadores como Higuita e Valderrama indicam que inúmeros telefonemas provenientes de Cáli e Medelin anunciavam que apostariam na seleção americana. Da delegação colombiana apenas um atleta, beque titular da seleção, se recusou a apostar na vitória adversária. Este atleta teve como prêmio o assassinato com um tiro na cabeça quando desembarcou em Bogotá após a Copa. Valderrama vive até hoje nos EUA e, numa entrevista em 2000, afirmou que jamais esquecerá aquele dia, pois foi o dia em que mais ganhou dinheiro;
Segundo - era notório o interesse do capital financeiro em consagrar campeã a seleção do país das grandes empresas (clubes) de futebol – a Itália. A Itália de Milan, Roma, Juventus, Internazionale, Parma e Fiorentina, empresas/clubes que concentravam em seus elencos os melhores jogadores do planeta. A Itália cuja seleção apresentava uma flagrante contradição: os melhores jogadores italianos, além da idade avançada (média etária de 33 anos), em sua maioria não jogavam nos grandes clubes/empresas e sim em agremiações mais modestas. Itália com grandes dificuldades na renovação de seu elenco por falta de incentivo aos jovens atletas;
Terceiro – também era notório o interesse da presidência da FIFA (João Havelange) de colocar a seleção brasileira na final da copa. A combinação de interesses (FIFA e capital financeiro) apontava para a eliminação de um óbice que se colocava diante deles – a seleção da Argentina. Assim, um providencial exame antidoping foi realizado, punindo o melhor jogador dessa seleção e, conseqüentemente, afastando-a da pretensão de disputar o título.

Na copa de 1998, realizada na França, os interesses do capital financeiro prevaleceram, primeiro por ser uma competição na Europa e, por tradição, até então, as seleções européias somente conquistaram o título quando o torneio se realizava naquele continente. Daí tudo indicava que o campeão seria um escrete europeu. A bolsa de apostas apontava o favoritismo de Itália, Espanha, Inglaterra e França, nessa ordem, por conta do volume de capital aplicado ao esporte nesses países. Por fora, a seleção brasileira, campeã de 1994, que tentaria o seu quinto título. O decorrer do torneio eliminou os três primeiros favoritos, conduzindo para a disputa final a seleção anfitriã (cuja participação no torneio era razoável) e o Brasil, que apresentava um excelente desempenho. O confronto final foi marcado pela farsa, a seleção brasileira se apresentou de forma pífia, tendo o então considerado melhor jogador do mundo (Ronaldo, o fenômeno) jogado sua pior partida. Resultado combinado? Quem sabe! O certo é que a França venceu e, na copa seguinte, fora do continente europeu, o Brasil ganhou.

Em 2002, Copa do Mundo na Ásia, a primeira contradição do esquema montado pelo capital financeiro/FIFA: a não renovação do elenco das “seleções favoritas” – Itália, Espanha e Inglaterra, principalmente. Tal fato, agregado ao cumprimento do acordo de 1998, numa competição com 32 equipes, foi preponderante para consagrar a seleção brasileira pentacampeã. Já nesta copa, cerca de 40% dos jogadores de todas as seleções presentes estavam vinculados aos principais clubes/empresas da Europa. Se, por um lado, este fato transformava os torneios disputados naquele continente no que há de melhor no futebol mundial, por outro ofuscava o processo de renovação do elenco local, especialmente na Itália, Espanha e Inglaterra.

Copa do Mundo S.A.

A Copa de 2006, realizada na Alemanha, ficou marcada por um processo de renovação, iniciado pela França em 1998 adotado por alguns países europeus, em 2002, agora de forma generalizada, que é a nacionalização de jogadores estrangeiros como forma de suprir a renovação natural do elenco das seleções européias. Por ter iniciado o processo, a França era considerada uma das favoritas ao título. O capital financeiro internacional manifestava preocupação com o desenrolar do campeonato italiano, uma vez que clubes/empresa entravam em crise, como é, principalmente, o caso do Parma. Daí á necessidade de colocar a Itália como favorita, a despeito dessa seleção se apresentar com um elenco com faixa etária alta (praticamente o mesmo há três copas). O confronto final desse torneio se deu entre as seleções da França (cujo desempenho na competição foi excelente) e a Itália, que se arrastou no torneio classificando-se a duras penas. A intervenção do capital foi decisiva. Zidanne, considerado melhor jogador do mundo, não perdeu a cabeça por conta de provocação e/ou ofensa a sua família. Sua expulsão refletia sua revolta contra o novo arranjo. Tanto é que tão logo terminou a copa manifestou o desejo de encerrar a carreira. O caminho foi aberto facilitando a partida em prol da Itália. Nessa copa, aumentou de 40% para 42% o percentual de jogadores vinculados aos principais clubes/empresa da Europa.

Em 2010, primeira copa no continente africano, constatou-se que, do total de 736 jogadores presentes, representando 32 países, 353 (cerca de 48%) estão vinculados aos clubes/empresa europeus, dentre os quais destacam-se: Manchester United, Real Madrid, Milan, Barcelona, Juventus, Arsenal, Bayer München, Liverpool, Olympique Marseille, Chelsea, Internazionalle, PSV Eindhoven, Bayer Leverkusen, Tottenham, Mônaco, Villarreal, Weder Bremen etc. Significa dfizer que a nata do futebol mundial está baseada nos torneios e campeonatos desenvolvidos no continente europeu.
Dentre as seleções européias então cotadas como favoritas, duas delas, Inglaterra e Itália, se apresentaram com elenco formado por jogadores com alta faixa etária, alguns disputando a quarta copa do mundo. A França também apresentou um elenco com idade avançada, embora na bolsa de apostas fosse cotada como azarão face a sua enorme dificuldade em se classificar. As outras favoritas, Espanha e Alemanha, apresentaram um efetivo trabalho de renovação do elenco. A campeã Espanha mesclou experiência com novos elementos oriundos da seleção sub-20. Já a Alemanha mesclou a renovação natural com jogadores ‘novos’ através da nacionalização de jogadores estrangeiros – foi o caso do atacante Cacau (brasileiro) e do ala esquerda da seleção, Boateng, cujo irmão gêmeo Boateng disputou a copa como meio campista da seleção de seu país Gana.

Negociações de jogadores e capital financeiro

Por outro lado, estavam as seleções tradicionalmente consideradas fortes, como Brasil e Argentina, que desde a copa de 1998 transformaram-se em verdadeiras legiões estrangeiras compostas em sua maioria por jogadores que atuam nos clubes/empresas europeus. Na do Brasil, por exemplo, dos 23 jogadores, apenas 2 (menos que 10%) jogam em nosso país e, destes, um retornou recentemente sob a forma de empréstimo, com contrato vigindo até a abertura da temporada européia, em agosto próximo. Na seleção Argentina, dos 23 jogadores, apenas 5 (pouco mais de 20%) disputam o campeonato nacional daquele país. Os demais jogadores portenhos compõem a legião estrangeira. Significa dizer que os melhores jogadores desses países atuam na Europa e, o que é mais preocupante, vivenciam a permanente possibilidade de alcançarem contratos milionários, a cada ‘abertura do mercado’ (início de temporada).

Escrevi esse artigo ciente de que o capital financeiro apostou na vitória da Espanha. Ciente, também, de que o capital financeiro influenciou na competição através de grandes negociações de jogadores ou pela pressão que exerce na política interna de países considerados fontes de excelência no futebol (Brasil, Argentina, os demais países da América Latina e alguns centros africanos), fato que inviabiliza o processo de renovação qualificada dessas seleções, facilitando a prévia determinação dos resultados das competições.

Significa dizer que a copa de 2014, que será realizada no Brasil, longe de ser uma oportunidade clara para conquistarmos o hexacampeonato, pode se transformar numa enorme frustração. Daí a preocupação, inimaginável, de hoje pensar numa derrota, pois o grau de violência advinda dessa catástrofe pode ser extremamente danoso. Caso não haja mudanças na legislação de forma a coibir o aliciamento de jovens valores e a negociação de atletas com idade inferior a 23 anos, é muito provável que na próxima Copa do Mundo o percentual de jogadores que atuam nos clubes/empresas da Europa ultrapasse a 50% dos atletas que disputarão a competição. O que pode determinar o resultado final da competição. 
                                           


* Gilberto Alcântara da Cruz é economista e diretor do Sintcon-RJ. O conteúdo do referido artigo expressa tão somente a opinião do autor, e não a do Sindsprev/RJ.






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