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Geral  

Greve de garis no Rio enfrenta governo, mídia, PM e até sindicato, mas tem forte apoio popular

07/03/2014

Garis em greve durante passeata na av. Presidente Vargas, no Centro do Rio, na sexta-feira (7)
fotos: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Da Redação do Sindsprev-RJ
Por Hélcio Duarte Filho

Atores de uma das mais 'invisíveis' profissões, eles precisaram parar para que fossem notados. Enfrentam a Prefeitura da segunda maior cidade do país, a repressão policial, a mídia comercial e até a direção do sindicato ao qual são filiados e contribuem mensalmente. Mas não falta apoio popular à greve dos garis da Comlurb, primeira paralisação por tempo indeterminado nestas dimensões da história da empresa municipal de coleta de lixo das ruas do Rio de Janeiro. Apoio que ficou evidente no sétimo dia da greve, quando percorreram quatro quilômetros e meio da sede da Prefeitura até a Câmara de Vereadores, na Cinelândia, no Centro da cidade.

Cantaram a plenos pulmões e por vezes até dançaram, sob aplausos frequentes da população, que os saudou das calçadas ou das janelas dos escritórios. Faziam barulho. Empolgavam a cidade meio vazia por conta da ressaca do Carnaval. Empolgavam a cidade, embalando-a com marchinhas e paródias que lembravam o clima da folia que acabara há pouco: “Acelera Comlurb que eu quero ver/Esse lixo vai feder/A Prefeitura não deu aumento não/E esse lixo vai ficar todo no chão” ou “Se liga aí prefeito/Se não tiver aumento, não vai ter Copa/Só vai ter lixo”.

Um carro de som cedido pelo Sindicato dos Servidores da UFF (Sintuff) auxiliava a manifestação, que ocupou as faixas da pista lateral da av. Presidente Vargas, no sentido Centro, seguiu pela av. Rio Branco, bloqueada em ambos os sentidos, e chegou à Cinelândia – aos gritos de “a greve continua, prefeito a culpa é sua” – por volta das 14h15 da sexta-feira (7). Sem poder contar com o seu sindicato, os garis receberam o apoio de outras entidades, dentre elas a CSP-Conlutas (Central Sindical e Popular), o Sindsprev-RJ, dos educadores (Sepe-RJ) e dos Petroleiros (Sindipetro-RJ).

‘Vou pôr no Facebook’

Funcionária de uma empresa chinesa instalada na Presidente Vargas, Marina Cavalcante estava entre as muitas pessoas que festejaram a passeata. "Sem eles a gente não vive. Eles são ignorados, mas sem eles a gente não existe. Dá uma olhadinha no Centro da cidade como está", disse à reportagem, pouco depois de pedir a um gari a camisa laranja do uniforme da Comlurb para tirar uma foto como se a estivesse vestindo. “Vou pôr no Facebook”, disse.

Para ela, a postura do prefeito Eduardo Paes de não negociar é “ridícula”, assim como é inaceitável a repressão policial que a categoria sofre. “Por que tudo isso para os garis?”, indagou, apontando para policiais da Tropa de Choque que ‘escoltaram’ a passeata por todo o trajeto, mas não tentaram impedi-la, como em dias anteriores.

‘O salário deles é miserável’

Empregado em um escritório de advocacia, José Ricardo, celular na mão, filmava a manifestação e aplaudia os garis. “Acho o salário deles miserável para quem limpa a cidade, tão de sacanagem. Apoio sim a greve”, comentou o rapaz, que também não poupou críticas ao prefeito Eduardo Paes. “É uma pouca vergonha [não negociar]. Vai ficar só pensando em Copa, Copa, Copa, enquanto tem muitas famílias passando fome?”, questionou.

Assim como ele, muita gente parou para filmar e fotografar a passeata dos homens e mulheres, muitas mulheres, de uniforme laranja – que somavam algo entre 1.500 e duas mil pessoas, número bem superior aos 300 que a mídia vem atribuindo aos atos e assembleias do setor. “Quero ver a Globo filmar agora e dizer que são 300”, pensou alto um manifestante, pouco antes de chegar à Cinelândia.

‘Tapete vermelho’

O contador e petroleiro Vagner Moraes Machado, da Petrobrás, vestiu uma camisa de gari, pegou uma vassoura e foi à frente da passeata. Dizia prestar uma homenagem simbólica à categoria. “Hoje eu que estou varrendo as ruas por onde eles vão passar. Eu estenderia um tapete vermelho para eles, são verdadeiros guerreiros da nossa civilização. Nós não suportamos uma semana do lixo do que nós produzimos”, disse. “Em Nova Iorque, [um gari] começa ganhando cinco mil dólares. E o prefeito quer tratar estes garis como moleques, fiquei danado quando ele ameaçou demitir”, criticou.

A greve iniciada no dia 1º de março, sábado de Carnaval, ocorre à revelia do sindicato da categoria (Sindicato dos Empregados de Empresas de Asseio e Conservação do Município do Rio, filiado à UGT) – que soltou nota criticando a paralisação e atribuindo-a a um grupo sem representatividade. O sindicato jamais contestou as ameaças de demissões.

Ameaças da Prefeitura

Os garis que fazem a greve dizem que a direção da entidade é “vendida” à Prefeitura e à Comlurb. “Nós colocamos eles lá e eles estão traindo a gente”, disse um grevista que não quis se identificar, ao criticar o acordo assinado pelo sindicato. “Nosso salário é um pouquinho mais que o salário mínimo”, prosseguiu o gari, há 33 anos trabalhando na Comlurb. O piso está em R$ 802 e passa para R$ 874 pelo acordo assinado pelo sindicato. Parte da categoria recebe ainda 40% sobre esse valor, a título de insalubridade. Sem plano de carreira, o valor é o mesmo para quem entra agora ou está há três décadas na empresa.

Os trabalhadores também denunciam que estão sendo coagidos pela Comlurb a trabalhar e negaram que o movimento esteja agredindo quem não queira aderir à greve. “É mentira, ninguém está sendo ameaçado [pelos grevistas]”, disse uma gari que integra a equipe da região central da cidade e que também não quis ter o nome revelado com receio de retaliações.

O movimento promete mais manifestações para os próximos dias. No domingo, fazem pela manhã um protesto em Copacabana, com concentração às 10 horas na Estação Arcoverde, do Metrô – eles pedem o apoio da população. Para terça-feira (11), às 15 horas, está marcada uma audiência de conciliação no Tribunal Regional do Trabalho. Enquanto isso, cresce a solidariedade nacional à greve nas ruas e nas redes sociais. “Receber este apoio todo com a cidade fedendo desse jeito, é porque o povo gosta mesmo deles”, comentou, ao ver a manifestação, um transeunte que passava pela Cinelândia.


Garis em greve, na manifestação no sétimo dia de greve, no Rio






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