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Geral  

Meus personagens não estão na história oficial porque penso o Brasil fora do padrão europeu’, diz Luiz Antônio Simas

03/12/2014

 

 

Da Redação do Sindsprev/RJ
Por André Pelliccione

Para o professor e escritor Luiz Antônio Simas (foto), em vez de shopping centers, cinemarks, marcas de grife e toda a frescura aburguesada que, via mensagens publicitárias, cada vez mais vem padronizando as grandes regiões metropolitanas brasileiras, aquilo de que realmente precisamos são cidades humanizadas, que não sejam meros espaços de circulação de mercadorias. Cidades onde reinem feirantes, foliões, bêbados, líricos, rodas de samba, esquinas e curimbas (macumba).

Autor do livro ‘Pedrinhas miudinhas — ensaios sobre ruas, aldeias e terreiros’, coletânea de 41 textos publicada em 2013, ele foi uma das atrações do I Seminário Fela Kuti, realizado em outubro, na Uerj.

Logo no início de sua fala, que fez para um auditório lotado, Simas disse, de forma descontraída, que seus personagens ‘não estão na História oficial’ e que ‘pensa o Brasil fora do padrão europeu’.

“Temos que ter a ousadia de quebrar alguns paradigmas, sobretudo na universidade, onde os paradigmas são centrados na tradição dos saberes ocidentais. Temos que conhecer alguns paradigmas que a sabedoria afro-ameríndia mostra pra gente. Eu, por exemplo, trabalho com carnaval e, certa vez, estava dizendo que o carnaval do Rio pode ser apolíneo, regrado, como o carnaval das escolas de samba, ou dionisíaco, como o carnaval da rua. Mas aí pensei por que eu deveria chamar o carnaval de apolíneo e dionisíaco se eu poderia chamá-lo de oxalufânico ou exusíaco? Afinal, o país que tem Oxalufã e Exú não precisa mesmo de Apolo e Dionísio para criar conceitos, para trabalhar regras e desregramento”, disse, sob aplausos.

Circularidade cultural

Em seguida, explicou um conceito com o qual vem trabalhando ultimamente, o de ‘circularidade cultural’. “É um conceito – disse – que utilizamos em história e antropologia e que foi desenvolvido pelos franceses. Isto porque as culturas se misturam e você não pode distinguir o que é popular e erudito. Só que entre os bacongo, no Congo Angola, existe o Nikube. Vejam só. Uma vez por ano ocorre a floração das árvores. O fenômeno é que cada flor tem um cheiro peculiar, só que, em relação a outras flores, o contato dos cheiros gera um outro cheiro completamente novo, fenômeno chamado de Nikube. Na verdade, o Nikube é uma metáfora poderosa de uma cultura que é produto da circulação dos saberes e esse cheiro do Nikube gera uma coisa potencialmente nova. Por que então não usar o conceito Nikube em vez do conceito de circularidade das culturas? Logo, temos que ter a ousadia de vislumbrar o mundo, buscando esses saberes afro-ameríndios”.

Para Luiz Antônio Simas, esse ‘enfrentamento de saberes’, essa ‘audácia’, são absolutamente necessários, pois ‘o Brasil foi pensado, sobretudo na transição do Império para a República, a partir da perspectiva de embranquecer o país’. “O embranquecimento racial aqui foi um projeto de Estado na transição do Império para a República. Quando a abolição da escravatura aconteceu, a grande indagação foi sobre o que faríamos com os descendentes de escravos. Aí veio o mito do ‘bom selvagem’, etc e tal. Nessa perspectiva, o branqueamento tinha dois sentidos: primeiro, o branqueamento físico. Um cara como Silvio Romero, por exemplo, defendia que o Estado trouxesse o imigrante europeu e aqui estimulasse o casamento interracial para branquear os negros, mas o branqueamento também era cultural e veio com a criminalização das manifestações de descendentes de africanos a partir da chamada lei de vadiagem de 1890, que foi usada para criminalizar os batuques, as macumbas, os santos. Por que será que um dos maiores acervos de arte sacra de origem africana do Rio se encontra no museu da polícia? Porque a polícia obteve esse acervo invadindo terreiros e apreendendo objetos ao longo de 30, 40 anos, a partir da lei de vadiagem”, explicou, para em seguida completar:

“mas esse projeto de branqueamento foi um fracasso porque os descendentes de africanos conseguiram fazer com que sua cultura permanecesse na fresta. Onde o africano foi colonizado, culturalmente ele foi o colonizador porque as referências culturais dele acabaram se impondo com visceralidade. A bateria da Portela, por exemplo, foi consagrada a Oxossi num momento em que havia a criminalização pesada do culto. O agueré [toque sagrado do orixá Odé] se transformou no toque das caixas da bateria”.

Sobre ‘Pedrinhas Miudinhas’

Discorrendo a respeito de seu livro ‘Pedrinhas Miudinhas’, Simas explicou o que o levou a escrever a obra. “O livro aconteceu quando tive a idéia que me veio por conta de um ponto de encantaria de Pai Joãozinho da Gomeia. Pedrinha Miudinha, Pedrinha de Aruanda. Pedrinha miudinha é quase uma epistemologia da macumba, é vislumbrar nessas pedrinhas miudinhas, nessas miudezas, nessas coisas pequenas, o descortinar de um Brasil que eu acho que pode andar. Então esse livro, a rigor, é uma declaração de amor às pessoas que me civilizaram, pessoas que não estavam na academia ou nos salões, mas nas ruas e nos cultos afro, na sabedoria popular. Com os textos, isso foi um pouco do que eu procurei demonstrar no livro”.

 

 

 






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