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Geral  

Elaine Marcelina: ‘como um país de não leitores vai se perceber como um país de escritores?’

14/04/2015

Autora de ‘Mulheres Incríveis’, obra que traz depoimentos de 12 mulheres e suas atuações sociais e políticas no Rio de Janeiro, além de crônicas e poesias, a escritora e historiadora Elaine Marcelina (foto) conversou com o Jornal do Sindsprev/RJ após o lançamento do livro, no espaço Conexão das Artes, e falou do significado de ser uma escritora negra e oriunda da periferia, num Brasil ainda racista e discriminador. Emocionada, ao final da entrevista leu parte do poema ‘Crioula D’África’, que compõe o livro (texto: André Pelliccione/ Foto: Niko).

Jornal do Sindsprev/RJ - como surgiu a idéia de fazer o livro ‘Mulheres Incríveis’?

Elaine Marcelina – a idéia surgiu quando eu estava na graduação, cursando história, em 2006. Eu sempre  pensei no universo feminino por causa da luta da minha mãe, que foi empregada doméstica e, com muita dificuldade, criou 5 filhos, dos quais eu sou a mais velha. Então eu me apaixonei pela metodologia de história oral, essa coisa de recolher depoimentos. Aí comecei a catalogar e registrar depoimentos de mulheres e, a cada mulher que eu ia entrevistando, eu ia vendo histórias muito legais, histórias de vida que me emocionaram bastante. Importante lembrar que, nas entrevistas com essas mulheres, meu foco foi sempre na atuação social e política delas.

JS – e como você começou a escrever o livro, concretamente?

Elaine Marcelina – eu tenho um amigo chamado Salvador Marcelino, que na época me estimulou muito a publicar o livro sobre essas mulheres. Aí eu timidamente escrevi meu primeiro texto, chamado ‘Gênero e Ancestralidade’, que foi quando eu vi Mãe Beata de Iemanjá, uma das entrevistadas, dizer que ‘quem não conhece sua raiz não chega ao topo’. A partir do que ela me disse, eu então pensei assim: ‘se eu não me conheço, como vou conhecer o universo feminino de qualquer mulher?’. A questão é que ela também me disse outra coisa marcante, que foi o fato de ter publicado três livros, mesmo tendo a terceira série primária e sendo semi-analfabeta. Quando eu quis conhecer o espaço dela, Mãe Beata me disse que tinha feito todas as universidades do mundo, com a vida. Para completar, ainda me disse mais uma frase fantástica: ‘quando jogarem o último torrão de terra em cima de mim, saibam que estarão jogando o último torrão de terra em cima da Luther King mulher’.

JS – e qual foi a sua reação a tudo isso?

Elaine Marcelina – vi que precisava mesmo ouvir essas mulheres, que tinham muito pra contar. Então, no mesmo ano em que me formei [2008], com apoio do MNU (Movimento Negro Unificado) de Nova Iguaçu, ganhei mil reais pra fazer 60 exemplares e aí nasceu o ‘Mulheres Incríveis’, que traz 12 depoimentos de mulheres. Em janeiro deste ano lancei uma segunda edição do livro, revisada e ampliada, no espaço Conexão das Artes. Nesse meio tempo, no ano de 2011, lancei um livro de contos e crônicas, o ‘Emoções Reveladas’. Na época eu já fazia o mestrado em história social, focando na atuação da mulher dentro do espaço religioso.

JS - que mulheres são essas que você entrevistou? Como você as define?

Elaine Cristina – tem três mulheres que, para mim, são ícones da sociedade: Mãe Beata de Iemanjá, Zezé  Motta e Vanda Ferreira, líder do movimento negro e que prefaciou a segunda edição do ‘Mulheres Incríveis’. Mas tem também Dona Teresa, que se alfabetizou aos 70 anos de idade porque trabalhou na roça. Ela não tinha ido à escola porque o marido não permitia e até hoje cata papelão pra viver. A Dona Teresa é tão importante quanto a Vanda, tanto no aspecto econômico como no político, na militância. Teve também a Dona Rosa Dias, da Vila Cruzeiro, que criou 8 filhos e nenhum deles virou bandido. A Dona Rosa apresentou o filho num ritual, dizendo assim: ‘Lua, Lua, luar. Esse menino me ajuda a criar. Se for pra ser negro bom aqui no morro, pode deixar. Se não, pode levar’. Ainda teve um outro depoimento muito importante, de Luiza Dantas, uma sindicalista para quem a importância da mulher está na criação do homem, pra quebrar o machismo.

JS – você é mulher e negra, ou seja, é duplamente discriminada numa sociedade racista e sexista como a brasileira. Você acha que está trilhando um caminho que foi aberto por Carolina Maria de Jesus?

Elaine Cristina – acho que sim. Recentemente, eu falei de Carolina, na UFRJ, quando da criação do Coletivo Carolina de Jesus. O fato é que, no Brasil, a elite sempre escreveu. No entanto, eu me pergunto como um país de não leitores vai se perceber como um país de escritores? Veja bem. Sou uma mulher negra e intelectual, que mora na periferia, em Campo Grande. Então, a academia tem essa dificuldade de reconhecer o meu trabalho, que não tem apoios institucionais. Acho que é um crime a invisibilidade que existe em relação a Carolina Maria de Jesus. Eu mesma só vim a saber dela na universidade. O pior é saber que Carolina escreveu no mesmo período de Clarice Lispector, contra a qual eu nada tenho. Mas pergunto por que não me apresentaram a Carolina também? No prefácio escrito pela Vanda Ferreira, sou comparada a Carolina de Jesus. Não sei se posso ser comparada a ela, mas sou destemida como ela. Assim como faziam com a literatura de Carolina, as pessoas acham que a minha literatura é menor.

Assista ao vídeo da entrevista com Ivone Landim clicando aqui

‘Crioula D’África’
(Elaine Marcelina)

Crioula D´África porque nasci no Brasil

Crioula porque tenho descendência africana

Crioula porque sinto na pele o resquício da escravidão

Crioula porque sinto no olhar o racismo lanhar na minha pele, tal qual a chicotada que meus antepassados levaram

Crioula porque minha mãe era doméstica e servia à elite, tal qual a escrava de dentro servia aos senhores, ambas sendo consideradas quase da família

Crioula porque nascer no Brasil com sangue africano me fez crioula, fula preta, parda e hoje negra

Crioula com muito orgulho de carregar nas veias sangue de reis e guerreiros africanos

Crioula porque creio na cultura e na religião de matriz africana

Crioula porque respeito o mais velho, assim como a cultura africana ensina

Crioula por ter orgulho de expressar esse amor pela África sentida na pele, essa África que meus mais velhos me ensinaram a cultuar e a ter fé

Crioula porque sou filha de uma negra valente, bisneta de negros valentes e fui docemente criada por uma negra valente, que me visitará em meus sonhos até a eternidade

Crioula que hoje tem a ousadia de falar por toda essa negrada valente, em qualquer lugar, solto a minha voz, exaltando mulheres e homens negros que construíram essa nação

Crioula por sentar à mesa com os opressores, fruto da elite, e saber que posso enfrentá-los, tal quais as regras que eles puseram na mesa






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