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Geral  

Em livro, jornalista relaciona crise hídrica do Sudeste a desmatamento na Amazônia

16/10/2015

Lançado em maio deste ano, o livro ‘A Floresta Amazônica garante nossas vidas’, do jornalista Marcelo Csettkey (foto), relaciona a atual crise hídrica na região Sudeste do Brasil ao desmatamento na Amazônia provocado sobretudo pela pecuária extensiva naquela região. Em entrevista ao Jornal do Sindsprev/RJ, Csettkey falou sobre o livro e o trabalho de conscientização que vem realizando em vários pontos do país (Texto: André Pelliccione/Foto: colaboração).

Jornal do Sindsprev/RJ – como você começou a atuação como escritor e quantos livros já escreveu?

Marcelo Csettkey – com o mais recente (‘A Floresta Amazônica garante nossas vidas’), já são 4 livros. O primeiro foi em 1998, mostrando os primórdios da Igreja Católica, no Império Romano. O segundo foi sobre os atentados de 11 de setembro, nos EUA, no qual mostro que o governo norte-americano sabia da possibilidade do atentado e explorou aquele evento para ampliar suas políticas beligerantes em todo o mundo. O terceiro livro, ‘Confirmação da Teoria do Complô’, analisou a situação geopolítica desde o assassinato de Kennedy até o 11 de Setembro, mostrando os interesses das grandes corporações fabricantes de material bélico e do complexo industrial-militar por trás daqueles acontecimentos.

JS – o que levou você a escrever ‘A Floresta Amazônica garante nossas vidas’, na medida em que a temática difere dos livros anteriores?

Marcelo Csettkey – em primeiro lugar, foi a decisão de não mais comer carne bovina, pois desde muito jovem eu já procurava saber a origem daquela carne e descobri que o boi é um ser exótico no Brasil, que não existia antes do ‘descobrimento’ e se tornou destruidor das florestas por causa da pecuária extensiva praticada em nosso país. Hoje, por exemplo, temos mais bois que pessoas no país. São 212 milhões de bois para 204 milhões de pessoas. Algo inacreditável, mas real. Em 1990, quando fui ao programa do Jô Soares, então no SBT, eu disse que os pastos destruíam as florestas, mas eu mesmo ainda não tinha a real noção da gravidade do problema para o país.

JS – e quando você passou a ter a noção exata desse problema?

Marcelo Csettkey – foi a partir de 2005, com a assertiva do cientista Antônio Donato Nobre, vinculado ao INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e ao INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia). Há cerca de 10 anos, ele afirmou que a região Sudeste teria queda de pluviosidade e que isso afetaria a produção de energia elétrica. A previsão dele foi ainda mais exata em 2009, quando disse que teríamos de 5 a 6 anos para evitarmos um problema climático maior. Ora, em 2014 vimos exatamente o aguçamento da crise hídrica na região Sudeste. Então, isso me impressionou bastante. Como explicação, Antônio Nobre associou o problema ao desmatamento da Amazônia, calculando, em 10 anos, o quanto geraria de malefícios. Isso porque o Brasil e a América do Sul vivem uma singularidade, que é o fato de a Floresta Amazônica jogar 20 bilhões de litros de água diariamente, na atmosfera, algo maior que a vazão do rio Amazonas. Essa umidade é transportada pela Cordilheira dos Andes e desemboca no Sudeste do Brasil, que não é desértico exatamente por isso. Antônio Nobre, em seus estudos, calculou o que o desmatamento na Amazônia iria representar em termos de diminuição da umidade no Sudeste.

JS – como você vê as atuais políticas governamentais, nas esferas federal, estadual e municipal, para a área do meio-ambiente?

Marcelo Csettkey – não vejo com bons olhos e, para refletirmos sobre a questão, basta pensarmos no funcionamento do legislativo. As campanhas eleitorais para o parlamento são bancadas por grandes empresas e corporações, como acontece no Congresso Nacional, onde cerca de 370 parlamentares não têm interesse em combater o desmatamento. Esses parlamentares agem assim porque representam a bancada ruralista, que deseja continuar com a pecuária extensiva sem qualquer preocupação quanto à degradação de nossas florestas. Mas isso vai gerar um malefício tremendo para a população, o que já está acontecendo, na medida em que o desmatamento irresponsável foi aceito no atual código florestal, que não protege as matas ciliares e ainda anistia os desmatadores. Ou seja, facilita-se a vida de quem quer desmatar para colocar gado, para criar boi, como o do Brasil, que é relativamente barato no mercado internacional.

JS – você então discute a questão das chamadas ‘externalidades’, ou seja, o custo sócio-ambiental das cadeias produtivas?
Marcelo Csettkey
– sim. Faço essa discussão e, como exemplo, lembro a situação da soja, que é utilizada como ração para o gado confinado da Europa e de outras regiões do planeta. Soja cuja produção exige grande quantidade de água. Para se ter uma ideia, em um quilo de carne bovina gasta-se 15 mil litros de água, o que é insustentável. Cumpre lembrar que as emissões de gases estufa no Brasil ocorrem devido às mudanças do solo, à questão das queimadas e aos bois, que emitem metano, gás muito prejudicial ao meio-ambiente.

JS – o que deve ser feito, em sua opinião, para reverter esse quadro de degradação e como está sendo a repercussão do seu livro?

Marcelo Csettkey – meu livro traz uma entrevista com o cientista Antônio Nobre, que endossa o texto. Há pouco tempo estive na Zona da Mata de Minas Gerais, onde falei para 9 prefeitos, muitos deles sensibilizados para o problema. Na verdade, os prefeitos daquela região estão muito apreensivos. No Maranhão, estive em universidades e em breve farei o mesmo no Rio de Janeiro. Meu objetivo é estimular a conscientização das pessoas e felizmente percebo que existe uma grande vontade de mudar, sobretudo por parte da juventude nas universidades, criando uma nova visão.

JS – isso é suficiente para articular as ações de grupos, pessoas e instituições que querem reverter essa degradação?

Marcelo Csettkey – é importante mudar o atual quadro, fazendo com que a população, e não as corporações, passe a dar as cartas nas políticas ambientais. Então, para isso, tem que mudar a forma como são financiadas as campanhas eleitorais no Brasil, pois 70% do legislativo, como já disse, é voto certo a favor das corporações. Veja o caso da JBS Friboi. Ela gastou R$ 391 milhões para financiar campanhas políticas e faz isso porque espera ver um determinado parlamentar atendendo aos interesses da empresa. Essa é a questão.

JS – então, a agricultura é incompatível com a preservação ambiental?

Marcelo Csettkey – não é incompatível. Inclusive, o cientista Antônio Nobre fala sobre isso, mostrando que não há incompatibilidade entre agricultura e preservação ambiental, desde que se tenha racionalidade, fazendo progredir as duas coisas.

JS – como você vê o envolvimento da comunidade científica brasileira nessas questões?

Marcelo Csettkey – para te responder, quero lembrar que hoje vivemos uma situação de ignorância das massas. Há um partido no poder, o PT, completamente fora da realidade. Um partido que indicou Aldo Rebelo (PCdoB), um político, para o Ministério da Ciência e Tecnologia. Independente de qualquer questão partidária, ele declarou que a questão do aquecimento global é uma ‘mentira’ criada pelos países desenvolvidos com o objetivo de impedir o desenvolvimento dos países não desenvolvidos ou em vias de desenvolvimento. Então, ele mostrou estar completamente fora da realidade a nível mundial, uma vez que mais de 95% dos cientistas são unânimes em dizer que o aquecimento global é provocado pela emissão de gases-estufa, principalmente combustíveis fósseis. É nisso que dá preencher o ministério com indicação política em detrimento de um técnico que conheça o assunto. Assim, tudo é distorcido.

JS – como preservar o meio-ambiente e evitar a degradação sem modificar o atual sistema de produção baseado no consumo irresponsável, descartável e excessivo?

Marcelo Csettkey – para isso, é preciso mudar os atuais padrões de consumo. Veja bem. Na carne, por exemplo, no espaço de um hectare produzem-se 250 quilos após 3 anos ou mais de atividade. Nesse mesmo espaço, pode-se produzir toneladas de milho, de feijão. Enfim, é uma diferença absurda de produtividade. Para mim, o problema não está na oferta, mas na demanda. O que eu digo nas minhas palestras é que comer ou não comer carne bovina é da consciência de cada um, mas comer carne bovina da Amazônia é suicídio coletivo porque, se faltar a umidade de que já falamos, o Sudeste vai virar um deserto. É bom saber que, na mesma latitude do Sudeste brasileiro, estão o deserto de Kalahari, na África, e o deserto de Atacama, no Chile. Então, é uma questão muito séria, cuja discussão transparente eu não vejo na grande mídia, que atribui a queda de pluviosidade ao fenômeno El Niño. Mas o El Niño pode, no máximo, agravar a situação. Ele não é a causa principal. A causa principal é o desmatamento na Amazônia.

JS – quais as próximas atividades de promoção do livro?

Marcelo Csettkey – ainda em Outubro, estarei na Universidade Cândido Mendes, na Tijuca, depois no IBMEC e na Prefeitura de Rochedo, Zona da Mata mineira. Também haverá atividades em colégios. O brasileiro tem que tomar conhecimento do grave problema ambiental por que passamos. As pessoas não podem mais continuar sendo iludidas por mentiras. Enquanto isso, os reservatórios nas grandes cidades estão com seus níveis cada vez menores, com quedas recordes, como no Sistema Cantareira. Estamos na iminência de acontecer algo pior.


 






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